quinta-feira, 3 de abril de 2008

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Drummond

Saudade

"Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã. Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia. Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido as aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua preferindo suco, se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados, se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor, se ele continua cantando tão bem, se ela continua detestando o McDonald's, se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer. É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso... É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer. Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler... "
Miguel Falabella

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Pensamento

"Graças a Deus, eu não penso mais no Jorge. Pelo contrário. Eu não penso nele o dia inteiro.
Inclusive, eu já acordo pensando: eu não vou pensar nele hoje, eu não vou pensar nele hoje, eu não vou pensar nele hoje. E hoje eu não vou pensar nele. Não vou mesmo.

Nada. Vazio. Um lago límpido. Um céu azul. Passarinhos cantando. Tudo, menos o Jorge.
Eu não disse que não pensava mais nele?
Nem penso no Jorge, nem no que ele me fez, nem na falta que ele me faz, nem em telefonar pra ele, Deus me livre, nem pensar.

Se por acaso vier na minha cabeça assim, "telefone", eu penso imediatamente em outra coisa. Telefone. Graham Bell. Jingle Bells. Natal. A blusa que o Jorge me deu no ano passado. Sai, blusa que o Jorge me deu no ano passado.

Vou começar de novo.

Telefone. Graham Bell. Jingle Bells. Natal. Réveillon. Janeiro. É melhor pular o Carnaval e ir direto pra Páscoa porque pensar no Carnaval é um perigo. Maio eu pulo também. Era nosso aniversário de namoro. "Era" nosso aniversário de namoro ou "é" nosso aniversário de namoro? Tanto faz. Eu não vou pensar nisso agora. Onde é que eu estava mesmo? Eu tinha pulado maio, nosso aniversário de namoro. Então agora vem junho. Julho. Agosto. Pulo setembro. Outubro. Novembro. E já cheguei no Natal outra vez.

Olha aí. Passei o ano inteirinho e não pensei no Jorge. E nem podia.
Minha cabeça está muito ocupada com coisas muito mais importantes.
O que é que eu vou fazer da minha vida sem o Jorge, por exemplo.
E o que é que eu vou fazer da minha vida sem o Jorge, por exemplo?
O que eu quiser, ora.
Por exemplo, me matar.
Mas se eu estou pensando no que é que eu vou fazer da vida, então me matar não vale.
Vale?
Devia valer.
Se a vida é da pessoa, a pessoa faz o que quiser com ela.

Eu estava pensando no que eu vou fazer com ela ou no que eu vou fazer sem ele?
Será que pensar no pronome "ele" vale, mesmo sabendo que "ele", no caso, é o Jorge, e eu não posso pensar nele?
Vale.
Também se eu não puder pensar nem em pronome, eu vou pensar em quê?
Em mim?
Em mim.
Mas mim é pronome.
Pronome oblíquo de "eu", sempre regido de preposição.
Preposição.
A, ante, após, até, com, contra, de, desde, eu odiava quando o Jorge usava preposição errada.
"Nesses casos a gente deve de ter calma, minha filha."
"Não tem esse 'de', Jorge. O certo é: nesses casos a gente deve ter calma."
Mas eu ficava nervosíssima.
Ele me chamava de "minha filha".
Eu ficava nervosíssima.

Em que é que eu estava pensando antes de pensar que eu ficava nervosíssima mesmo?
Estava pensando em mim. Isso. Pronome oblíquo de "eu", sempre regido de...
É melhor pular a preposição e pensar em outra coisa.

Nada. Vazio. Um lago límpido. Um céu azul. Passarinhos cantando. Tudo, menos o Jorge.

Eu não disse que não pensava mais nele?"


(Adriana Falcão)


Esse texto sempre foi essencial na minha vida. A primeira vez q o li, foi há 6 anos atrás e eu lia, relia, e lia de novo, e não conseguia parar de ler... E eu já o compartilhei com várias amigas e seus "Jorges". Agora é a minha vez... Não tenho um Jorge. (Do I?). Mas, acho imprescindível que as pessoas que me rodeiam leiam essa crônica, por que parece eu falando e sempre temos um Jorge ou uma Georgete em nossas vidas (Don't we? rs)... Espero q vcs curtam!

Kisses,

Clah

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

How does it feel?

I'm not afraid of anything.
I just need to know that I can breathe.
I don't need much of anything, but suddenly...
I am small and the world is big
All around me is fast moving...
Surrounded by so many things... but suddenly (suddenly)

How does it feel to be different from me?
Are we the same?

I am young and I am free
But I get tired and I get weak.
I get lost and I can't sleep... but suddenly (suddenly)

How does it feel... to be different from me?
Are we the same?
How does it feel?

Would you comfort me?
Would you cry with me?

I am small and the world is big
But I'm not afraid of anything

sábado, 5 de janeiro de 2008

Fundo com o barco

Passei por uma fase turbulenta e confusa de emoções. Por isso andei pensando sobre os meus maiores medos na vida.

Há quem diga que o medo nos enfraquece, e acaba por censurar outras pessoas que usem da ousadia. Entretanto, creio que o medo faz parte do nosso instinto de preservação, a fim de evitar emoções negativas, experiências ruins... Mas até quando esse medo é "natural e saudável"?

Quando vou ao dentista, o "medo de doer" é natural. Dá um friozinho na barriga, assim como quando ando na montanha-russa (uma vez em nunca). O medo que a anestesia não faça efeito é paradoxal. Medo de algo que vai me fazer bem. Medo de algo que evitará a dor. (?) O medo de viver situações perigosas, adrenalina a mil, etc. Ok.

Conflitos emocionais já me fizeram ter medo do que o outro iria pensar. E é isso que me motiva a escrever esse post hoje. Isso é tremendamente nocivo. Minhas ações e pensamentos baseavam-se na aprovação do outro; eu já não era eu mesma. A definição de co-dependência define bem isso: "não se vive a própria vida, mas a de alguém o qual é colocado, aos poucos, como centro de existência na vida". Não somos nós mesmos, abdicamo-nos de nossa vida em prol da satisfação do outro. Enfim, vamos ao fundo com o barco.

Tire a venda dos olhos e veja.
Veja... nunca deixe de ser você.
E para tal, se conheça... a fundo!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Meu vício agora

"Não vou mais falar de amor
de dor, de coração, de ilusão
Não vou mais falar de sol
do mar, da rua
da lua, ou da solidão
Meu vício agora é a madrugada
Um anjo, um tigre, um gavião
que desenho acordada
contra o fundo azul
da televisão
Meu vício agora é o passar do tempo
Meu vício agora
Movimento, é o vento
É voar
Não vou mais verter
Lágrimas baratas sem nenhum por quê
Não vou mais vender
Melôs manjadas de karaokê
E mesmo assim fica interessante
Não ser o avesso do que eu era antes
De agora em diante
Ficarei assim
Desedificante"

(Paula Toller e George Israel)

Meu vício agora é esperar o tempo passar... Um vazio grande... Estranho... Saudade!
(Clara de Carvalho)



Mais longe

Às vezes, certas coisas e/ou situações nos parecem simples, à primeira vista. Tenho percebido isso com o tempo e com as pessoas que vejo. [O engraçado é que aprendizado é algo que pode demorar um pouco a ser notado!] A gente vive diferentes situações a cada dia, lida com emoções, pensamentos, reações, comportamentos. A gente vai aprendendo e nos moldando, daí a gente ganha prática. E, needless to say, experiência.

O fato é que-- a coisa mais nova que eu tive o prazer (ou desprazer: isso me persegue agora) de descobrir foi a mágica da psicanálise. Não a encare como um termo psicológico, mas como algo interessante a ser lido. Um professor meu costumava dizer que "exemplos clareiam tudo" e então dou-lhes um exemplo para que o que eu digo faça sentido (tomara!):

Minha mãe diz: Thalia, vamos à festa daquela moça que morava com o seu avô quando pequeno?
Eu digo: Ah mãe...... (pausa) Tô cansada, vou não.
Minha mãe diz: Tudo bem então.

A situação finaliza aí mesmo. Não menti, estava realmente cansada. Mas pouco tempo depois, parei e refleti. Por que será que eu realmente não quis ir? Estar cansada foi o real motivo causador da minha indisposição? E então começa a turbulenta atividade na minha cabeça. Passa mais um tempo e eu concluo, para mim mesma: "Cara, eu posso até estar cansada, mas eu não quis ir mesmo porque aquela velha é muito chata!".

Admiti para mim mesma a real origem da minha prévia atitude. Não comentei isso com minha mãe. Foi tudo processado mentalmente, em questão de minutos. Revelei-me para mim mesma. E isso é incrivelmente mágico. E inspirador. Faz com que você seja mais honesto com si mesmo. Faz com que você drible as mensagens instantâneas do inconsciente... (sou leiga: não entendo de Psicologia)... mas é algo fascinante. Questionar-se é fantástico.

Sim, Thalia, e o resultado disso tudo? Bem, eu diria que eu me sinto mais conectada ao meu interior, como se eu me conhecesse melhor. Seja lá qual for a consequência disso, conhecer a si mesmo não é algo ruim, é? Enfim, da próxima vez que eu quiser a ajuda de um namorado, por exemplo, direi: "Me ajuda aqui por favor?" ao invés de "Ah...você tá ocupado né...?"